Rui Soccol – Reencontrando o amor, pioneiro morre

Rui Soccol, 79 anos, irmão do principal fundador de Medianeira, Pedro Soccol morreu no dia 30 de agosto de 2011, vítima de complicações pulmonares, depois de um internamento de 40 dias (37 na UTI) no Hospital Maternidade Nossa Senhora da Luz de Medianeira. A exemplo do irmão Pedro, Rui Soccol teve um bom atendimento médico pelo SUS, recebeu poucas visitas e ao falecer seu corpo foi levado para Serrafina Corrêa, terra natal. Em Serafina teve velório e missa de corpo presente. Um considerável número de pessoas participou do evento fúnebre e o corpo foi enterrado no mausoléu da família.

Rui Soccol nasceu em Serafina Corrêa, antiga Linha Onze, 9º Distrito de Guaporé, Rio Grande do Sul, dia 25 de fevereiro de 1932, sendo o 5º filho do agroindustrial Miguel Soccol (proprietário do Frigorífico Ideal) e de Tereza Fontana, casal que gerou nove filhos, três deles ainda vivos: Roni, Dino e Diva (esta residindo na Itália).

Homem tímido e extremamente reservado, Rui levou uma vida pacata, solitária e de pouca conversa. Depois da morte do irmão Pedro, em agosto de 1998, passou a residir solitariamente, numa modesta casa, bem no centro de Medianeira. Quase todas as manhãs dirigia-se a padaria Tuttis onde comprava “10 pães de bauru curitibano, mortadela fatiada Bolonhesa e dois maços de cigarro Hilton longo”, revela Rose de Lara, caixa da padaria. E mais: “Era um homem muito educado, simpático (sempre dizia bom dia e nunca furava a fila), muito limpo, camisa e calça bem passadas”. Depois seguia para sua residência, cozinhava alguma coisa e almoçava no silêncio da solidão, e passava o resto do dia fumando, muito — média de dois maços e, para muitos, até quatro. Gostava de escutar rádio. Era gremista. Montou uma verdadeira operação de guerra para ter um rádio que pegasse as rádios Gaúcha, Guaíba ou Farroupilha, de Porto Alegre. Sua casa tinha modestos móveis. O destaque ficava por conta de uma geladeira, meio nova. Porém, tudo muito limpo.

Nadir Della Pasqua, pioneira e primeira cartorária de Medianeira tem uma visão que expressa carinho e respeito a Rui Soccol. “Ele veio mocinho para Medianeira (provavelmente no início dos anos de 1950) e foi uma formiguinha que nunca apareceu”. E na metáfora explicativa de Nadir, “Rui deixou algumas marcas, entre elas a fina educação, a paz, a figura serena e a convivência inseparável com o irmão Pedro. E a verdade de ter sido protagonista do nascimento, crescimento e consolidação de Medianeira”, destaca.

Com a solidão e a velhice chegando, Rui Soccol passou a fumar sempre mais e a beber “além da cota” (cachaça Jamel). E passou a cair. No primeiro tombo quebrou a clavícula e, acredita-se que tenha ficado no chão “mais de um dia”.

E só não morreu porque o tempo era quente”, relata o vizinho Carmelindo Nespolo. Recuperado, mas com sequelas num braço, voltou a cair “em diversas ocasiões até ir parar na UTI e de lá sair morto”, informa Mário Rosso, taxista particular durante 15 anos.

O abrigo no cassino

Tal qual o irmão Pedro, Rui encontrava a paz, o lazer — e a própria ruína — em noitadas no Cassino. E nos cassinos de Iguazú (Argentina) e Acaray (Paraguai) deixaram todos os cobres que poderiam gerar menos sofrimentos na dor e na doença.

Rui Soccol era aposentado, por idade, recebendo R$545,00 e cerca de dois mil reais do arrendamento da fazenda Guairacá, de aproximadamente 190 hectares na região do Espigão do Norte. Pelo menos uma vez por mês, quando recebia, chamava o taxista Mário Rosso e partia para o jogo. “A gente saía no sábado, por volta das 20h30 e a volta era sempre pelas seis da manhã”, diz Rosso. Sabe-se que Rui Soccol jogava 21, menos 9, pôquer, roleta, entre outros. Vizinhos garantem que geralmente perdia, como é a lógica do jogo. Acredita-se que nunca deixou nas mãos dos “banqueiros mais que R$ 2 mil e que em poucas oportunidades forrou as gibeiras com cobres”.

Um grande caso de amor

Pedro morreu solteiro. Rui, também. Se Pedro teve um grande amor, ninguém sabe. Rui teve. Não casou porque não deixaram. A diferença de idade (25 anos mais velho) impediu de sacramentar o amor depois de um ano de namoro. A guria (pediu para não ser identificada) casou com outro. Não deu certo. Nem poderia. Há 26 anos está separada e continua amando Rui. Por longos anos a guria teve um ritual. Arrumava-se para ir à missa dominical e olhar para Rui, que esperava pela sua passagem “com seus olhos azuis brilhando de amor”. Nada falavam. Os olhares diziam tudo. Os dois envelheceram. A guria nem tanto, está com 54 anos. Rui ficou doente. Era para morrer só. Não foi o que aconteceu. A mulher de sua vida, por entre as brumas da febre que ardia no frágil corpo que agonizava, ela apareceu. Deu-lhe um beijo, forte, estalado que se fez ouvir mais que os fortes gemidos de dor de outros enfermos da UTI. Rui abriu os olhos e com a voz trêmula, rosto pálido, magro, mas, brilhante de felicidade disse:

— Você não me esqueceu, meu amor!

— Sim, estou aqui para te amar, como sempre te amei.

E os dois ficaram abraçados. Rui teve uma melhora, durante três dias. E na noite do dia 30 de agosto partiu feliz.

Rui Soccol, não foi um homem de negócios; em breve, será ninguém; um dia como todos nós: estaremos mortos.

Rui Soccol em 1970

Casa e lote da família Soccol no centro de Medianeira

Guria esperou 28 anos para reencontrar Rui Soccol


DE SOL E LUA

  • A família Soccol é mais tradicional de Serafina Corrêa. O município foi criado em 1960. Tem uma população de 14.243 habitantes (Censo 2010) e está localizado na Encosta Superior do Nordeste, RS. Segundo Roque Meaureo, tradicional morador de Medianeira (leia-se Guarani Musical), que esteve no enterro de Rui, “praticamente todas as pessoas com mais de 70 anos compareceram ao velório”.
  • A colonização de Serafina, antiga Linha Onze é em 90% com base na imigração italiana.
  • Rui Soccol foi jogador de futebol. Fez testes no Grêmio mas, não foi aprovado. No União de Medianeira jogou como centroavante. Com um detalhe. Sempre jogava de óculos. E levava dois; um para o jogo e outro para o término da partida.
  • Rui chegou em Medianeira por volta de 1952. Era contador formado num tradicional educandário de Porto Alegre.
  • A casa de moradia de Pedro e Rui Soccol fica no centro de Medianeira. O lote tem 764 metros quadrados, pertence à viúva do Dr. Ovídio, irmão de Rui. Em breve casa e lote estarão à venda. O negócio é avaliado em cerca de 800 mil reais.

 

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