SOLTEIRÕES DE SERRANÓPOLIS

Duas famílias, 7 filhos que não pretendem casar

No interior da vila de Flor da Serra, município de Serranópolis do Iguaçu, distante 12 quilômetros de Medianeira, 3 moças e 4 moços, vizinhos e parentes chamam atenção pelo modo sui generis que levam a vida. Casta, reclusa, familiar e “socialista”; um contraponto nos tempos das baladas, ficar, transar, dormir junto antes do casamento e da avareza sem limites. Os solteirões e solteironas fazem exatamente o contrário. Não namoram, não vão à bailes, não pretendem casar e gastam o necessário e o suficiente para viver bem, quase sempre comprando e pagando a vista. E a vida passa a ser norteada por quatro comportamentos: viver em família, trabalhar na roça, repartir igualitariamente os ganhos e frequentar a Igreja Católica.

Os Ghiotto

No inicio dos anos de 1960, Miguel Arcanjo Ghiotto deixou as terras de Ijuí, RS, e migrou para Flor da Serra, Oeste do Paraná, na vila de Flor da Serra, na época pertencente ao município de Medianeira, hoje Serranópolis do Iguaçu. Em 1967 contraiu matrimônio com Líbera Marsaro e da união nasceram os filhos Rosane, Roberto e Roseli. Tudo ia muito bem, apesar das dificuldades da época, até que uma tragédias e abateu sobre a família. Aos 41 anos, Miguel Arcanjo morreu vítima de um enfarte fulminante em 1983, “quando descarregava uma carga de tijolos para construção da churrasqueira da comunidade católica de Flor da Serra”, conta a irmã Antônia Ghiotto Ceretta. O prematuro falecimento de Miguel Arcanjo ainda hoje é comentado por antigos moradores que ficaram chocados pela morte do pioneiro, e não cansam de reverenciar o heroísmo da mãe (Líbera) em criar 3 crianças na roça. E os irmãos cresceram e ainda permanecem na colônia. Rosane 45 anos estudou até a 5ª série; Roberto, 40 anos, até a 6ª série e Roseli, 39 anos até a 7ª série. “Escrever a gente escreve, agora não sei se entendem as letras”, brinca a caçula, Roseli, sempre mexendo nas panelas para o almoço. Os irmãos são educados e cuidam muito bem da mãe, Líbera, 73 anos, que ultimamente andou com problemas de saúde. Eles têm lavouras de soja e milho, tiram manualmente cerca de 70 litros de leite/dia e transforam em queijo. A casa antiga de moradia virou paiol, ao lado, no galpão uma velha trilhadeira para debulhar milho e um Corcel I – com muita serventia -, fica na garagem. Existe um poleiro para muitas galinhas; no pátio galos de terreiro, choca de pintos e uma considerável produção ovos. As galinhas, caipiras, são criadas soltas e alimentadas com milho, por isso a procura é grande para os adeptos dos chamados produtos natural. Patos nadam tranquilamente num pequeno açude. Na casa nova tudo é muito limpo. É lá que Rosane diz que faz uns 20 anos a última vez que foi num baile para dançar de par. Não namorou. Um dos motivos era que ”tinha muito serviço na roça, quebrar milho, apinar… e não sobrava tempo”. Roberto diz que não sabe dançar e “nunca teve uma namorada”. Roseli alega que tem tanta gente se separando que o “melhor e viver solteira”. Os irmãos participaram por longos anos das atividades dos Grupos de Jovens, da Igreja Católica. Não são mais jovens e os grupos estão agonizando. Mais um fator para não sair de casa. O interessante entre os Ghiotto é que neste mundo marcado pela ganância de ter (leia-se dinheiro), eles valorizam o ser, “uma família, sem brigas, encrencas”. Assim, só existe uma conta bancária, no Sicredi, que é da família. “Nós só compramos a vista, se tem dinheiro. Cada um pega o que precisa”, enfatiza Rosane. Além dos gastos com produtos utilitários para o bem-estar familiar, despesa fixa é mesmo um plano de saúde Unimed. Eles pagam mais de dois mil reais ao mês para atendimento médico, com direito a apartamento hospitalar. 

No baú das lembranças duas fotos são indicativos para não abandonar a vida no campo, de apego à terra: uma trilhadeira puxada por uma junta de bois e o falecido pai junto a uma gigantesca tora de peroba sendo levada para uma serraria. Pela sinceridade, honestidade, humildade, pode-se concluir. Eles são felizes.

Os Ceretta

José Arlindo Ceretta, 76 anos e Antônia Jandira Ghiotto, 75, também migraram do Rio Grande do Sul no ano de 1961, deixando as terras de Ijuí para fixar residência em Flor da Serra. O casal teve 10 filhos e destes 4 são solteiros e residem com os pais. Sadi Máximo tem 51 anos, Valdir Francisco, 47, Cecília Rosane, 45 e João com 43 anos. Todos solteiros e vivevendo em união familiar. João, o caçula “já teve alguns namoricos, mas não deram certo. Ela ainda vai de vez em quando a algum baile”, comenta a irmã Cecília, a mais tagarela dos irmãos. Os outros três irmãos (Sadi, Valdir e Cecília) preferem ficar em casa. Chegaram a frenquentar os Grupos de Jovens. “No tempo que tinha carnaval em Flor da Serra a gente ia. Agora paramos de vez, mais de 20 anos, para não se incomodar”, fala Cecília pedindo apoio ao irmão João, que com o balançar da cabeça acaba concordando. Os outros irmãos praticamente não falam.

Os Ceretta trabalham com uma visão empresarial na agropecuária. Recentemente implantaram um aviário para 10 mil aves de postura, usando a melhor tecnologia para produção de ovos comerciais. Também investiram num pesque-pague, muito movimentado nos fins de semana, com uma produção estimada de oito toneladas de peixes. Além disso, trabalham com lavouras de soja e milho safrinha. Pagam mensalmente cerca de R$ 2.400,00 num plano de saúde da Unimed para seis pessoas. As contas ficam com o irmão Valdir, que administra toda movimentação financeira para o bem de todos. Dos 10 filhos de José Arlindo Ceretta, 4 são solteiros, 5 casados e um separado. Somam-se 8 netos e 2 bisnetos.

E a vida social dos solteiros? Todos falam: “está bom assim. A gente vai à missa e nas festas da igreja. E veja que casa bonita nós temos para morar. Não falta nada. O que é de um é de todos”, declaram os irmãos, desta vez na voz de João que já chegou a fazer parte do grupo de lideranças da Cooperativa Lar. Tanto os irmãos Ghiotto quanto os Ceretta escolheram o que consideram o melhor para viver e, principalmente dizem que são felizes. É o que importa.

HEROÍNA. LíberaRosane (45 anos), Roberto (40) e Roseli (39) nunca namoraram e nem pretendem casar. Eles vivem na propriedade Ghiotto; na vizinhança; os irmãos Ceretta, Sadi (51anos), Valdir (47), Cecília (45) e João com 43 anos seguem a mesma trilha do não namorar e casar. E os 7 solteiros são até parentes, são agricultores e há mais de 20 anos não vão à bailes para arrastar o pé e dar uma olhada nas moças e moços bonitos. Além da castidade, os solteirões nas famílias levam uma vida “socialista” onde o dinheiro é de todos e cada um presta conta tão somente à consciência.

SOLTEIROS. Os irmãos Ghiotto: Roberto, Roseli e Rosane; os Ceretta: Sadi, Valdir, Cecília e João à esquerda. Nada de bailes, castidade e participação comunitária na comunidade católica.

 

MORADIAS. Casas de primeira linha nas propriedades dos Ghiotto e Ceretta, bem diferente dos ranchos da década de 1960.

TERREIRO. Criação de galinhas caipiras, uma fonte de renda para família Ghiotto.

LEMBRANÇAS. Velha trilhadeira e carretão com tora. Propriedade de Miguel Arcanjo Ghiotto que faleceu prematuramente aos 41 anos. A menina é a filha Rosane.

 

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