Progresso e Desenvolvimento nas décadas de 1960/70. Desilusão e taperas após formação do lago de Itaipu. Hoje, um criatório de pintainhos faz renascer a esperança aos 1031 habitantes do distrito de Vila Celeste.
Todos os dias, às 6h, 11h30 e 18h, o único sino da Igreja São Paulo toca pausadamente 100 badaladas, que podem ser ouvidas a até 10 quilômetros de distância, anunciando o alvorecer, o meio-dia e a Ave-Maria. O sino também dobra para avisar celebrações religiosas ou o falecimento de um ente querido.
O responsável por marcar a passagem do tempo é o gaúcho Guerino Varnier, natural de Bento Gonçalves, hoje com 85 anos, que reside na Vila Celeste desde 1967.
Varnier é testemunha ocular de 44 anos de uma história marcada pelo progresso, abandono e, mais recentemente, renascimento. As terras planas da Vila Celeste, propícias para extração de madeira nobre, cultivo de hortelã na década de 1960 e, posteriormente, grandes plantações de soja, milho e trigo, despertaram o interesse de pequenos agricultores vindos do Rio Grande do Sul há cerca de quatro décadas.
Além da fertilidade do solo, a região contava com infraestrutura estratégica: a chamada “Rodovia das Quedas”, um trecho de 169 quilômetros que ligava Guaíra (Sete Quedas) a Foz do Iguaçu — hoje coberto pelo lago de Itaipu — e a proximidade com o Rio Paraná. Era o cenário ideal para a formação de um novo município.
Por essas razões, por volta de 1960, Celeste Dall’Oglio adquiriu uma grande área de terras da colonizadora Madalozzo, com o objetivo de revendê-las a pequenos agricultores. Assim, começaram a surgir os primeiros movimentos de ocupação, levantando a poeira vermelha da esperança por uma vida melhor.
E o progresso chegou
Até 1967, Santa Helena era distrito de Medianeira. Nesse mesmo ano, tornou-se município, incorporando terras de Medianeira e Marechal Cândido Rondon.
Em 1970, a população do jovem município chegava a 26.834 habitantes, sendo cerca de 24 mil residentes na área rural. A cidade contava com 1.667 habitantes, enquanto a Vila Celeste e seu entorno somavam, segundo estimativas, mais de 2.500 moradores.
Relatos das famílias Varnier, Vargas e Grasselli descrevem uma vila vibrante e estruturada. Pelo local passavam nove linhas de ônibus no trajeto entre Guaíra e Foz do Iguaçu. Havia escola com 650 alunos, dois pontos de táxi, hotel, hospital, dentistas, farmácia, mercearia, loja de tecidos, serrarias, dois açougues, relojoaria, cerâmica, torno mecânico, oficina, discoteca, bolão e salão de festas.
A vida cultural também era intensa, com a presença ocasional de ciganos, circos e atrações artísticas, como o radialista sertanejo Edgard de Souza, da Rádio Nacional de São Paulo, e a dupla Léo Canhoto & Robertinho. O cinema local chegou a registrar recorde de público com a exibição do filme Coração de Luto, de Teixeirinha.
Na política, destacou-se José Biesdorf, eleito vereador pela Vila Celeste na primeira legislatura de Medianeira. Foi presidente da Câmara entre 1965 e 1966, após atuar como secretário entre 1963 e 1964. Em 1963, ao ocupar a tribuna, lançou oficialmente a campanha pela emancipação de Santa Helena, denunciando as precárias condições da estrada até Medianeira, afirmando que o melhor caminho era ir até Foz do Iguaçu e depois retornar.
Após a emancipação de Santa Helena, em 1967, José Biesdorf foi eleito vereador para o mandato de 1968 a 1972, assumindo a presidência da Câmara.
Biesdorf era um intelectual. Dominava o alemão e lecionava nesse idioma em sua terra natal, Santa Cruz do Sul (RS). Em Vila Celeste, atuou como professor primário em português. Também foi comerciante, agricultor e reconhecido como um habilidoso jogador de xadrez, conforme relato de familiares.
Faleceu em 1983 e, em sua homenagem, o município deu seu nome a uma rua e à Escola Estadual José Biesdorf, localizada na Vila Celeste.
O grande dilúvio
A partir de 1980, a Vila Celeste começou a se esvaziar com a proximidade da formação do lago de Itaipu. Mais de 60% das terras foram inundadas.
As indenizações, que inicialmente permitiam a compra de áreas maiores, rapidamente perderam valor devido à inflação, passando a ser insuficientes para adquirir sequer metade das terras perdidas.
Muitos moradores, sem alternativas, assistiram ao avanço das águas. Na manhã de 13 de outubro de 1982, iniciou-se um processo que duraria 14 dias, resultando na inundação de 31% das terras de Santa Helena. Na região da Vila Celeste. A Estrada das Quedas desapareceu, o Rio Paraná que ficava a cinco quilômetros avançou a menos de 1.500 metros; a escola perdeu 400 alunos; na avenida central das 15 moradias restaram apenas cinco. E a população de Santa Helena, em 10 anos foi reduzida em nove mil habitantes; comunidades como Rio do Moinho, e Beira Rio simplesmente desapareceram. E a vida tornou-se pacata e sem perspectiva de um novo progresso.
Novos rumos
Com os recursos dos royalties da Itaipu Binacional, a partir de 1991, Santa Helena ainda ensaia um novo surto de progresso. Os royalties deste mês de maio deste ano incrementaram aos cofres públicos de Santa Helena o montante de R$ 1,4 milhões o que permite ao município manter as estradas rurais em bom estado de conservação, muitas delas pavimentadas com pedras irregulares ou com uma fina camada de asfalto. O incentivo à industrialização é constante. E a população tem aumentado, beirando aos 24 mil habitantes.
E a esperança começa a fazer parte dos 1031 habitantes da região de Vila Celeste que compreende as comunidades de Santa Helena Velha, São Vicente Chico e São Luiz, destes 552 residem no perímetro urbano do distrito de Vila Celeste (IBGE 2010).
Royalties à parte, o grande impulso para o desenvolvimento da Vila começou em 2006, quando a Cooperativa Agroindustrial Lar implantou a Unidade Produtora de Pintainhos. “Foi uma grande conquista. Um passo importante para a diversificação das atividades agropecuárias e fixação do homem no campo e oportunidade de emprego”, comemora Jandir Vargas de Lima, 45 anos, natural de Vila Celeste, líder comunitário, agricultor, avicultor e dirigente cooperativista.
Todo o coroamento do investimento da Lar foi festejado no dia 26 de maio de 2011 (dia do município e 44 anos de emancipação) quando na presença do governador do Estado do Paraná, Beto Richa, prefeita de Santa Helena Rita Maria Schimidt e diretor presidente da Cooperativa Irineo da Costa Rodrigues, entre outras lideranças descerraram a placa alusiva à ampliação do complexo avícola.
A Unidade Produtora de Pintainhos ocupa um espaço de 300 hectares, sendo 152 mil m² de barracões construídos com capacidade de produção de 290 mil pintainhos/dia, e a geração de aproximadamente 500 empregos diretos, destes mais de 150 moradores da Vila Celeste. Os investimentos superam a casa dos R$ 100 milhões. E o povo aos poucos volta a sorrir, a ver um novo horizonte, o mesmo que os pioneiros vislumbraram nos idos de 1970.
De Sol e Lua
• De Medianeira até a Vila Celeste a distância é de 60 quilômetros de estrada asfaltada.
• Depois da formação do lago de Itaipu a população de Vila Celeste viveu um período de assaltos e roubos. Até uma gaita velha os larápios levaram.
• Ao lado da maior hidrelétrica do mundo, preços elevados pelo consumo da energia elétrica. Na Vila, os moradores exibem contas com valores entre R$ 230 a 250 por moradia.
• Com a chegada da Lar os preços dos terrenos de 1.000 m² na avenida dispararam. Há menos de cinco anos o valor era de mil reais. Hoje, os lotes variam entre seis a sete mil reais.
• Os moradores sentem falta de um forte estabelecimento comercial.
• A Cooperativa Lar tem vagas para quem quer trabalhar na Unidade de Pintainhos.
• A sub-prefeitura do distrito de Vila Celeste tem que manter 150 quilômetros de estradas rurais. Maquinário existe.

Vista aérea de Vila Celeste e da Unidade Produtora de Pintainhos tendo ao fundo o lago de Itaipu

Centro de Vila Celeste

Terezinha Grasselli. Saudade da antiga farmácia São Lucas

Guerino Varnier. O som do sino marca a marcha do tempo

Jaime Roque Varnier, sub-prefeito desde 2003. Ao fundo pai Guerino

Jandir Vargas de Lima. Líder comunitário, agropecuarista e liderança cooperativista
