A Fazenda Rami, latifúndio de 9.680 ha, pertencente aos irmãos Itimura, que deu nome ao município Ramilândia, 51 anos depois de sua formação, não tem rami e a terra é cultivada por cerca de 500 famílias assentadas.
No dia 22 de junho, a imprensa nacional destacou em manchete: “Prefeito Susumo Itimura, aos 93 anos é cassado pelos vereadores de Uraí, no Paraná”. O motivo da cassação foi o de “improbidade administrativa na contratação de serviços pagos e não realizados”. A ilegalidade gira em torno de R$ 11.000,00. Uma esmola diante da avassaladora onda de corrupção que permeia os labirintos da administração pública. No entanto, em nenhum centavo do dinheiro do povo subtraído do erário é justificável. O que causou espanto foi que a punição atingiu em cheio uma das maiores fortunas declaradas à Justiça Eleitoral. No seu 5º mandato como prefeito de Uraí, norte do Paraná, em 2008, Itimura declarou à Justiça Eleitoral possuir um patrimônio de R$ 55 milhões, formado por 112 bens, entre implementos agrícolas, casas de moradias, investimentos bancários e mais de 4.000 ha de terras. Segundo analistas políticos, a fortuna declarada por Itimura “é uma das maiores já registradas por políticos, no período eleitoral”.
E o que chama atenção, para a região Oeste do Paraná é que o velho prefeito declarou possuir um “imóvel rural denominado Fazenda Banhadão II, Matelândia, PR, com 2.165 hectares”. Na avaliação do próprio Itimura, a terra vale R$ 6 milhões, e representa mais de um quarto do que foi a antiga Fazenda Rami, que tinha uma área de 9.680 hectares, hoje de propriedade de 500 famílias assentadas pelo MST.
A colonização
A Fazenda Rami, imóvel rural negociado pelo governo de Moysés Lupion, deu início à colonização de Ramilândia no início dos anos de 1960. E atraiu muita gente, do Norte do Paraná e da Região Norte do Brasil. Foi uma colonização que basicamente fugiu do eixo migratório formado por descendentes de gaúchos e baianos.
Plantações de rami e café atraíram mão de obra de diversas regiões. Assim, em poucos anos, Ramilândia passou a ser Distrito de Matelândia e a população chegou a casa dos 11.472 habitantes (IBGE – 1980). Na Fazenda Rami, em 1975, a terra cultivada com plantações têxteis (fibras) são utilizadas basicamente para a confecção de sacos de estopa, cordas, sacolas, tapetes. Chegou a ter mais de mil hectares, com produtividade de 2,061 quilos por hectare, fruto do trabalho de cerca de 120 pessoas, que além dos três cortes anuais com duração de 120 dias, tinham outro serviço de “bater as fibras”, na mangueira, peripécia usada por centenas de mãos nas regiões produtoras.
Joaquim Clarindo da Silva, 81 anos, o popular “cearense” conheceu bem a Fazenda Rami, por mais de 20 anos e é só elogios à família Itimura. O João do Susumo “não permitiam judiaria com os empregados, prática comum nas outras fazendas. Também não passava fome, e houve apenas dois acidentes na mangueira, ambos com assassinatos, a priquituta”. O “cearense”, um homem de tez avermelhada do sol, viu o rami acabar devido à importação da fibra da China e os efeitos devastadores da grande geada negra de 1975. “A geada levou mais de 1,5 milhão de pés de café, plantações de rami e outras culturas, inclusive o milho”. Os nordestinos, cabras machos, não resistiram. Partiram para o trabalho nas lavouras de cana do interior de São Paulo.
Em 1985, a praga do bicudo destruiu. E a desesperança foi descendo das quadras da Fazenda Rami, que a partir de 1988 passou a ser improdutiva. O local foi parar nas ações do Movimento Sem Terra. E foi o que aconteceu.
A nova colonização do MST
“Antes da chegada dos japoneses à Fazenda Rami, a plantação de rami teve importância fundamental na economia da região, atraindo mão de obra e estimulando o comércio local. O ciclo do rami, usado para confecção de sacos de estopa, cordas, sacolas e tapetes, chegou a ter mais de mil hectares, com produtividade de 2.061 quilos por hectare. Esse trabalho exigia cerca de 120 pessoas, que além dos três cortes anuais ainda cuidavam do serviço de ‘bater as fibras’, na mangueira, operação realizada por centenas de mãos nas regiões produtoras.”

Susumo Itimura, antigo proprietário da Fazenda Rami

Vista das terras da Fazenda Rami

O “cearense” Joaquim Clarindo da Silva, capataz da Fazenda Rami

Caminhão carregado com rami em 1964

Salvador Cordeiro, assentado que não se queixa do viveiro de mudas
