Crise Sucessória: O Apagão Silencioso da Hotelaria Brasileira

Dezenas de empreendimentos hoteleiros Brasil afora estão sendo vendidos. E, pasmem, a maioria dos Ativos gozando e excepcional saúde financeira. Mas o que afugenta o empresariado de cabeça grisalha são outros fatores. Acompanhe na matéria a seguir.

Na última década, o setor hoteleiro brasileiro — tradicionalmente familiar, resiliente e marcado por histórias de pioneirismo e garra — vem enfrentando uma crise que, embora pouco noticiada, avança com a força de um tsunami silencioso: a crise sucessória. Mais do que uma tendência pontual, trata-se de um apagão estrutural que ameaça os alicerces de um dos segmentos mais emblemáticos da economia do país.

Enquanto os velhos patriarcas — homens que ergueram impérios de hospedagem a partir de pensões modestas ou pequenos hotéis de beira de estrada — envelhecem, seus filhos (e netos, em alguns casos) parecem mais interessados em startups, criptomoedas, beach clubs ou simplesmente em viver a vida sem a dureza do balcão. O glamour da hotelaria, se é que um dia foi consenso entre as novas gerações, cedeu lugar ao pragmatismo urbano e à busca por carreiras menos sacrificantes.

Segundo levantamento do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), mais de 40% dos hotéis independentes de médio porte estão em processo de venda, e em cerca de 70% desses casos a razão está na ausência de herdeiros dispostos a continuar o negócio. A situação é ainda mais dramática nas regiões Sul e Sudeste, onde o modelo de hotel familiar sempre foi dominante. Em Santa Catarina, por exemplo, levantamento do Sindhoteis mostra que um em cada três hotéis familiares com mais de 30 anos está oficialmente no radar de investidores estrangeiros.

O dilema dos herdeiros

A rejeição à sucessão pode até parecer capricho geracional, mas tem raízes mais complexas. A hotelaria, sobretudo no Brasil, é uma operação intensiva em mão de obra, com margens não raro apertadas, burocracia pesada e alta volatilidade — seja por sazonalidade, seja por conjuntura econômica. Para um jovem que estudou fora, fala três idiomas e cresceu viajando para o exterior, administrar check-ins, lidar com reclamações sobre o wi-fi e monitorar lavanderia pode soar como um pesadelo kafkiano. A ideia de “tocar o hotel da família” não concorre bem com a liberdade de um nômade digital.

Além disso, há um abismo de linguagem e visão entre as gerações. O fundador costuma ter um perfil centralizador, prático e avesso a inovações disruptivas. Já os herdeiros querem tecnologia, sustentabilidade, escalabilidade e horários flexíveis — ingredientes difíceis de alinhar num hotel que ainda opera com ficha de papel e café solúvel.

Liquidação silenciosa

O resultado é um fenômeno curioso: famílias colocando à venda ativos de altíssimo valor histórico e localização privilegiada — e quem está comprando são majoritariamente private equities e fundos estrangeiros. De acordo com a consultoria MENDES LOPES Capital, gestora especializada na venda de Ativos Hoteleiros, mais de 65% das transações hoteleiras realizadas no Brasil entre 2021 e 2024 envolveram compradores internacionais, notadamente fundos dos EUA, Canadá e Emirados Árabes, que enxergam na desvalorização cambial uma oportunidade de aquisição com desconto de até 40% em dólar.

A tendência é confirmada por dados da Embratur e do WTTC (World Travel & Tourism Council): o Brasil é hoje o terceiro país das Américas mais procurado para aquisição de ativos hoteleiros por investidores globais, atrás apenas de México e Colômbia. E diferente da velha guarda, esses compradores não têm o menor interesse em manter a tradição familiar: a operação é terceirizada, o DNA é corporativo, o foco é no yield.

Outras dores do setor

Além da sucessão, há outras feridas abertas no corpo da hotelaria brasileira:

  •   Obsolescência estrutural:muitos empreendimentos não acompanharam as exigências do novo viajante, seja em design, tecnologia ou conforto ambiental.
  • Tributação complexa:o Brasil continua sendo um dos países mais desafiadores em termos fiscais para operações hoteleiras.
  •   Falta de linhas de crédito específicas:diferente do agronegócio ou da indústria, a hotelaria conta com poucas políticas públicas de estímulo à modernização e expansão.
  • Concorrência com locação por temporada:a expansão desenfreada do modelo Airbnb reduziu a atratividade de hotéis tradicionais, sobretudo os de pequeno porte.

E agora, quem poderá nos salvar?

A menos que surja uma nova geração de hoteleiros dispostos a reinventar o setor com inovação, empatia e visão de longo prazo, a hotelaria familiar brasileira poderá em breve se tornar um item de museu. A boa notícia é que ainda há tempo. Iniciativas de governança, programas de mentoria empresarial e parcerias com universidades têm surgido para tentar reverter esse quadro — embora ainda tímidas frente à escala do problema.

Talvez seja o momento de os velhos fundadores entenderem que o legado não está apenas no prédio de concreto e mármore, mas também na capacidade de ouvir, adaptar e, quem sabe, passar a chave não com resignação, mas com visão.

Porque, no fim das contas, até um café coado com esmero precisa de alguém disposto a passar o pano.

(Por Gio Ahmad.’. – Jornalista Profissional (DRT 181/76 MG), Publisher/Editor Geral do Blog do Gio, membro da ABRAJET-MG, empreendedor na Hotelaria e no Mercado Imobiliário.)

Rio de Janeiro como os brasileiros nem sequer imaginaram ver, em boom imobiliário surreal – Divulgação

André Bekerman, diretor geral da Trul Hotéis, uma das bandeiras que mais crescem no país e que segue bem atenta as oportunidades – Divulgação

Rafael Jannuzzi, Sócio e Diretor Geral da Mendes Lopes Capital, divisão da Mendes Lopes Negócios Imobiliários, sediada em Juiz de Fora (MG), a companhia possui mais de 30 contratos em negociações diversas, principalmente compra e venda de Ativos Hoteleiros no Brasil. – Divulgação.

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